Tradução de Poesia: Missão Impossível? - Nelson Ascher, Articulista, Poeta e Tradutor

Data do Evento: 
sex, 25/03/2011 - 14:00

Ciclo de Palestras sobre Tradução

CITRAT* e Departamento de Letras Modernas, FFLCH, USP.

Avenida Luciano Gualberto 406, Cidade Universitária, São Paulo, Sala 271,

Prédio de Letras

 

 


Tradução de Poesia: Missão Impossível?

Nelson Ascher, Articulista, Poeta e Tradutor

Diz-se frequentemente que traduzir poesia é impossível, e a complexidade do
texto poético (no qual, quando se trata de algo bom o bastante para merecer
tradução, todos os elementos contéudiscos e formais se juntam e se articulam
entre si para gerar um todo mais denso do que a soma das partes) pareceria
endossar esse juízo pessimista. Há, para contradizê-lo, a constatação pura e
simples de que muitos dos melhores talentos criativos do Ocidente
dedicaram-se a tal empreitada, e que os resultados em questão são parte viva
e vital de diversas tradições literárias. Não é, no entanto, a partir daí
que pretendo questionar a tese da impossibilidade, mas, sim, propondo o
seguinte: enquanto às manifestações corriqueiras das línguas naturais subjaz
todo tipo de acaso, inclusive o histórico, e o acaso, por sua própria
natureza, dificilmente coincide em duas ou mais línguas, o que caracteriza a
poesia é seu alto grau de intencionalidade consciente ou subconsciente; pois
bem, quando se traduz poesia, é precisamente tal intencionalidade, bem como
o caminho desta rumo a seus resultados concretos, que pode ser seguido,
repetido e/ou "imitado" em outra língua; daí que, curiosamente, a poesia
seja, em última instância, mais traduzível do que as manifestações
randômicas das línguas naturais. Pretendo também enfatizar até que ponto a
transposição de poemas de uma língua para a outra requer uma grande
familiaridade com a poesia da língua de chegada, pois não se traduz só de
uma língua para outra, mas também de uma poética para outra, separada da
primeira no espaço, tempo e segundo suas leis, regras e convenções. Uma
familiaridade assim é o que permite à tradução de poesia ser algo mais do
que uma modesta atividade secundária, tornando-se algo que interage de modo
ativo com a literatura do presente.