Palestra: Traduzibilidade e Atualidade de Os Sertões

Data do Evento: 
seg, 19/04/2010 - 15:00

 

Ciclo de Palestras sobre Tradução

CITRAT* e Departamento de Letras Modernas, FFLCH, USP.

Avenida Luciano Gualberto 406, Cidade Universitária, São Paulo

 

Prof. Bertold Zilly, Freie Universitat Berlin
tradutor de Os Sertões, Lima Barreto, Raduan Nassar, Memorial de Aires
e Facundo

 

Euclides dirigiu-se apenas aos leitores brasileiros? E mesmo que assim fosse, quem eram os seus compatriotas letrados de 1902, ano da publicação do relato de uma guerra civil
que se tornou um sucesso estrondoso e um clássico de primeira hora, valendo ao seu autor o ingresso imediato ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e à própria Academia Brasileira de Letras.

O público desse tipo de literatura erudita era imbuído de cultura européia e conhecia mais a antiguidade, o cristianismo, as letras francesas; as ciências modernas, a história e a geografia do Velho Mundo do que o interior do Brasil. O autor, empenhado em revelar a si mesmo e aos seus concidadãos europeizados uma face totalmente ignota da realidade nacional, via-se portanto diante de um problema metodológico e didático: como devia desvendar-lhes os enigmas da natureza, da gente e da guerra do sertão? Tentando explicar o desconhecido através do conhecido, o autor mobiliza inúmeras comparações, alusões, metáforas, metonímias e outras expressões figuradas, todo o arsenal de três mil anos de erudição, retórica e poética ocidentais. Assim, por um desvio pela Europa, Euclides explica parcialmente o sertão: traduz a parte incógnita do Brasil em conceitos e representações ocidentais, dos quais deduz seus parâmetros de comparação e padrões interpretativos. Assim, além do público letrado do litoral, o autor tinha em
mente o público europeu, da época e da posteridade, de modo que Os Sertões é daqueles livros que pedem para ser traduzidos, e que, para desdobrar todo o seu riquíssimo
potencial de significados, precisam de recriação em outros idiomas. Sempre imaginei Euclides como escritor-orador-encenador da História, num grande anfiteatro, com público
brasileiro na platéia, e o público internacional nas galerias,
evocando, diante dos nossos olhos, ouvidos e corações, quadros e cenas daquele fascinante projeto social,
tragicamente malogrado - que foi Canudos -, graças à sua magia verbal, sensorial e presentificadora. Como tradutor-intérprete, só precisei seguir a atividade tradutória desse historiador poético que procura tornar a guerra no sertão
familiar e inteligível aos ouvintes-leitores, mantendo, ao mesmo tempo, a sua estranheza, a sua incomensurabilidade e a sua monstruosidade. Quis, portanto, que a tradução fosse uma espécie de palimpsesto, detrás da qual o leitor alemão pudesse vislumbrar o original tão elucidativo quanto monumental e enigmático.